O que é a "Sombra"?


O conceito de sombra foi desenvolvido pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Jung (1875-1961) que fundou a Psicologia Analítica e propôs conceitos como o inconsciente coletivo, os arquétipos, entre outros.

Mas o que é a SOMBRA e de que maneira ela se forma?

Toda criança estabelece um vínculo com os pais e o mundo externo e é através da qualidade destas relações que ela vai formando sua personalidade, se desenvolvendo, entendendo como o mundo funciona, aprendendo a se portar. Muito cedo, as crianças entendem quais comportamentos são ou não aprovados pelos pais. Aprovação, para elas, é sinal de pertencimento e amor – e todos nós desejamos fazer parte de um grupo, sermos aceitos, reconhecidos e amados.

Desta forma, a criança vai internalizando o que é “certo” ou “errado”, através da influência e dos valores transmitidos pelos pais, pela escola, pela família, pela religião e pela sociedade em geral. Nessa busca por adequação ao mundo e pela aprovação dos pais, a criança começa a negar pensamentos, tendências, sentimentos, desejos, percepções e características que ela interpretou ou vivenciou como “más”, “vergonhosas”, “erradas”, “inferiores” ou não adequadas para atingir seu objetivo de ser boa o suficiente para o mundo. E então, todo este conteúdo rejeitado se agrupa no inconsciente formando o que Jung chamou de “Sombra”.


O fato é que justamente por todo esse processo acontecer logo na primeira infância, quando a criança ainda não tem consciência suficiente e nem recursos para avaliar a dinâmica familiar e os padrões sociais no qual está inserida, ela acaba depositando na Sombra muito mais do que padrões de moralidade sobre o que considerou “ruins”, mas suas potencialidades não reconhecidas, maneiras de ser não compreendidas, sua espontaneidade e criatividade - fontes da autenticidade que a levam a ser uma pessoa única no mundo.


Luz, Escuridão e Projeção

Sabemos que as sombras só são vistas quando está presente a dualidade luz/escuridão. A luz encontra um obstáculo em seu caminho e se produz uma região escura (sombra) que é formada por essa ausência parcial da luz. A maneira mais simples de ver uma sombra é quando um objeto em contato com a luz forma uma região escura (sombra) que é projetada num plano ou num outro objeto.

Da mesma forma, percebemos os conteúdos da nossa Sombra quando eles são projetados em outras pessoas ou em situações que nos acontecem. A consciência encontra um obstáculo em seu caminho (a não aceitação) e a sombra se forma. Quando uma situação/pessoa se torna um gatilho para acessar algo que está presente em nós (conteúdo da sombra), por o termos negado e reprimido, projetamos isso para fora de nós mesmos e atribuímos aquela característica apenas à situação, pessoa ou objeto.

Por exemplo: Uma mulher que tenha dificuldades para exercitar a própria sexualidade, brincar com sua sensualidade e posicionar-se num contexto de atração - porque aprendeu em algum momento que aquilo era negativo - pode ter reprimido essa habilidade em sua Sombra. E quando vê uma outra mulher confortável num jogo de sedução, pode acabar julgando-a e censurando-a, sem se dar conta de que existe uma parte dela mesma que gostaria e poderia fazer exatamente a mesma coisa. Ela projetou na outra mulher um desejo/capacidade que ela possui, contudo, reprime em si.

Trazer Luz à Sombra

E a Sombra faz isso mesmo: ela quer ser percebida, compreendida e é por essa razão que, com frequência, seus conteúdos “escapam” do inconsciente e aparecem sob a forma de projeções, sonhos, reações impulsivas, autossabotagem, julgamentos e sofrimento emocional. Os conteúdos da Sombra não desejam ser repelidos – mesmo porque, muitos deles são a fonte de criatividade e autenticidade de que precisamos para nos sentir inteiros. Eles desejam ser integrados no Eu e manejados de forma consciente.

Quanto menos entrarmos em contato com a nossa Sombra, menos desenvolveremos nossos potenciais, mais seremos reféns de reações inconscientes, projetaremos nossas dificuldades no mundo externo com mais frequência e o nosso poder de atuação e escolha diminuem. Seremos vítimas e não protagonistas da nossa história.


Já quando o material da Sombra é trazido à consciência, lidamos com nossos medos, nossos aspectos desconhecidos e nossa escuridão interior. A autoaceitação é maior, aprendemos a reconhecer e a gerenciar as nossas emoções de maneira mais eficiente, a comunicação com as outras pessoas se torna mais direta e efetiva e podemos acessar nosso potencial criativo com mais facilidade.

Vale dizer que a Sombra faz parte de nós e nunca será completamente eliminada porque os conteúdos dela sempre podem aparecer em novas roupagens. Além disso, somos seres dinâmicos: em cada momento da vida teremos a capacidade de compreender aspectos de nós mesmos sob outros prismas, com mais profundidade. Lidar com a Sombra é um processo que dura a vida toda - significa olhar constantemente para quem se é e refletir honestamente sobre aquilo que vemos. E saímos sempre mais inteiros e mais apropriados de nós mesmos nesse processo.





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